Quero que me chamem de velho gagá

50

Houve um tempo em que homem se separou da natureza e teve necessidade de contar as coisas que ele julgava que lhes pertencia. Por ter dez dedos, o sistema decimal foi naturalmente escolhido por ser totalmente intuitivo. Neste contexto temos o número 5 como o mais representativo das metades. Ele reina glorioso e só perde em soberba pelo rei dos números: o Dez. O 10 é o cara. Menino, só aceito um dez na prova, ou essa: fulano é dez. Então meu amigos 50 (que é tão somente a soma de 5 gloriosos 10) também quer dizer metade. Mas será que estou na metade? O cem, que parece tão longinquo está logo alí e pode ser alcançado. Muitos estão aí para provar que sim. Quem sabe? Mas é melhor eu não ficar pensando nisto. A vida é aqui e agora. O passado não volta mais e o futuro é um mistério. O presente é a única condição que temos e nele temos que apostar todas nossas fichas e entender que o tempo que temos é nosso maior tesouro. Aliás de tudo que temos, tudo nos pode ser retirado, mas não o tempo, que deve ser gasto com parcimônia e cuidado. Gastamos nosso tempo como se fosse farto e abundante. Como se fossemos tê-lo para sempre. Mas agora quando as primeiras luzes lá do finalzinho do túnel vão se revelando indeléveis é que percebo quanto a vida foi boa e generosa comigo. Quanta raridade tenho na minha vida. Que sorte ter uma mãe como esta. Umas irmãs como estas que tenho. Quanta dádiva eu recebi na minha nova família de esposa e filha. E quanta ajuda e compaixão eu fui ganhando ao longo do tempo, dos amigos e de todas as pessoas que de alguma forma moldaram e mudaram minha vida. E vocês meus amigos, os velhos, os novos, os novíssimos, os de sempre, estão agora aqui comigo para brindarmos estes 50 anos. Então, Obrigado. Obrigado por tudo. Pela presença, pelas experiências. Por rirmos juntos e também chorarmos juntos. Por sofremos juntos e torcermos juntos. E sonharmos juntos. Desculpe-me se o discurso está longo, mas gostaria de ler pra vocês um poema (música) do Arnaldo Antunes. Ele se chama ENVELHECER:

“A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer
A barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer
Os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer
Os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer

Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer

Eu quero que o tapete voe
No meio da sala de estar
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá

Pois ser eternamente adolescente nada é mais demodé
Com uns ralos fios de cabelo sobre a testa que não para de crescer
Não sei por que essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender
Que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr

Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer

Eu quero que o tapete voe
No meio da sala de estar
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá.”

Convite Rogerio