Vida simples

Hera Jupiter  Juno

Perguntei a uma amiga: se você pudesse escolher, preferiria ter um marido fiel mas que fosse um mau marido, desses que bebem muito e falam o que não devem, e é, frequentemente um tédio, ou um marido infiel e ótimo esposo? Desses que faz você morrer de tanto rir? Após longo silêncio ela enfim disse: um ótimo marido se percebe pelo brilho que ele deixa nos olhos de uma mulher. Achei poético mas insincero, além de incompleto.

Na teoria, um bom marido é aquele que não trai, e são esses os que as mulheres mais abandonam. Mas porquê? Para que uma paixão continue a existir, é preciso a falta de certezas. Nenhuma mulher ama um marido fiel demais. Se pra tudo na vida há limites, porque não haveria para a fidelidade.

E quais são os homens mais inesquecíveis?, devolveu minha amiga em tom provocativo. Diferentemente do tempo que ela gastou em responder minha primeira pergunta fui rápido como um míssil exocet: são sempre os que mais aprontam, mais desaparecem, mais traem e não confessam nunca, os que voltam com o rabinho entre as pernas com um bouquet murcho de flores emprestadas dizendo-se completamente arrependidos e jurando aos deuses que isto nunca mais voltará acontecer. Mulheres vêm ao mundo dotadas de antenas especiais, capazes de captar a vigarice a distância, mas absurdamente inteligentes para saber o ponto onde é melhor ter aquele traste em casa a prover a família ou deixá-lo dar tudo para a outra, inconfessa.

A partir deste ponto fomos concordantes: se um homem é aprovado por todos, nunca é aquele que fará um coração feminino bater descompassadamente. Não se pode amar alguém aprovado pela família, pela igreja e pela sociedade. Esses são só para casar, o objeto, o que não tem nada a ver com paixão.

Minha amiga disse que sua família fora contra seu casamento. O que pode incendiar mais um romance do que a oposição da família? A família está sempre unida contra os “maus” rapazes. E o amor, então? Desde os Capuleto e os Montecchio tem sido assim, e não há modernidade que mude essa regra. A pior coisa que uma família pode fazer ao se opor a um casamento é se posicionar francamente contrário a ele. Vemos isto na nossa vidinha real e em todas as novelas de todos os horários da TV.

O tempo voa, será que no passado não voava? O que mudou foi que hoje não dá nem tempo de alguém ficar contra, porque aí já acabou. Reconheçamos: pais e mães estão certos. Nessa hora eles estão pensando em seu próprio sossego e em sua própria tranquilidade, no que estão cobertos de razão. Aliás, quase todos têm sempre razão, e algum dia você viu pais e filhos estarem de acordo? Se estão, alguma coisa deve estar errada.

O marido que quero para minha filha é que seja estável em todos os sentidos, começando pela financeira, e que os sentimentos do pretendente também sejam confiáveis. É até melhor que ele não se apaixone perdidamente; melhor que tenha um sentimento calmo, maduro, terno.

Minha amiga já pegando a bolsa para retornarmos ao carro após eu ter pago a conta ainda completou: as mulheres, com seus hormônios à flor da pele, anseiam por um homem que as enlouqueçam e as façam perder o rumo de casa. Esses às vezes até casam (quando ela é rica), mas que ninguém espere dele fidelidade. Bobos detalhes. Os ótimos maridos são os que levam a mulher para um motel numa tarde de segunda-feira, ou a um fim de semana a Nova York, a troco de nada, as crianças ficam com a empregada, qual é o problema?

E se for for flagrado pensativo recordando como era boa a vida de solteiro, quando a mulher chega devagarzinho e faz a pergunta, aquela: “em que você está pensando?” responderia com a maior sinceridade, “em você, amore”. Ela não vai acreditar, mas fica na dúvida: e se for verdade? Esse é um bom marido, e esse casamento vai durar.

Ao deixar minha amiga de volta ao trabalho ela se certificou que seus cabelos não estavam molhados e botamos um ponto final em nossas indagações: mas afinal, o que preferem as mulheres, um marido fiel ou infiel? Nosso veredicto foi: um homem fiel deve fingir que é infiel, e o infiel fingir que é fiel. Simples a vida, não?