Conselhos pra mim mesmo

Pílula da Felicidade

Viver o tempo todo sob pressão limita nosso repertório, mina nossas ideias e fragiliza nossa saúde. Mais do que prazer, entregar-se ao relaxamento e ao ócio reforça a criatividade e nos ajuda a vislumbrar algo que vira e mexe perdemos de vista: aquilo o que somos ou desejamos ser, de verdade.

Quem conhece o seriado americano House? Depois de ser apresentado a um caso extremamente difícil, o médico Gregory House discute o problema com sua equipe, que fica em polvorosa atrás da solução.

Muitas vezes, enquanto todos os outros especialistas envolvidos estão discutindo os sintomas, consultando a literatura e fazendo exames clínicos, House simplesmente se afasta de toda aquela tensão. Lá está ele, falando sobre a ex-namorada com seu melhor amigo, tirando um solo de guitarra, dando uma volta de moto ou brincando com uma bolinha de tênis quando… tchantachan! Tem uma ideia brilhante e finaliza o impasse com maestria.

E não é só na ficção que isso acontece. As grandes invenções e descobertas da humanidade partiram de momentos de imersão, meditação e ludicidade.

Veja a história sobre a lei da gravidade? Isaac Newton estava deitado debaixo de uma árvore descansando e contemplando a paisagem quando viu uma maçã (ou qualquer outra fruta que você quiser, só não vale jabuticaba) cair. A inquietação para entender que força levou a fruta para o chão, em vez de permiti-la flutuar ou subir, teria feito o físico mergulhar em estudos até chegar a uma conclusão.

No entanto, é bem verdade que está difícil encontrar quem se proponha a essas pausas com regularidade. Parecemos correr sempre contra o relógio e, nessa loucura, os momentos de ócio e lazer levam desvantagem, o que é um grande desperdício. Nossa vida é constituída de diferentes áreas, tais como trabalho, família, comunidade, política, espiritualidade e ócio. Ah o ócio! O ser humano precisa estar em contato com todas elas para se desenvolver de fato e ser tudo o que pode vir a ser.

Em boa parte dos dicionários o ócio aparece como sinônimo para a preguiça, caracterizada pela inatividade física e mental e a falta de produtividade. Entretanto, o tempo livre que estou falando, capaz de aumentar a criatividade, ocorre em situações que nos levam a entrar em contato com habilidades não utilizadas na rotina diária ou desenvolver melhor aquelas que já usamos.

O sociólogo italiano Domenico De Masi engloba tais experiências no que chamou de ócio criativo (outros estudiosos preferem ócio humanista ou construtivo): a ocupação do tempo com atividades gratificantes e prazerosas. Mas a principal característica dessas vivências é que a vontade deve partir da gente. Daí o ócio construtivo ocorrer, geralmente, em momentos livres de obrigações e compromissos, sejam eles profissionais ou sociais. Vale tudo o que traz riqueza cultural, reflexão, desafio ou troca. O grande trunfo está em suspender o automatismo das ações e os preconceitos e demorar-se nos detalhes para ver, ouvir e sentir de verdade. Há quanto tempo você não faz isso? Vou responder pra mim mesmo: talvez nunca. Mas então do que falo sem poder vivenciar? Sêneca disse que se o filósofo fizesse o que pensa e diz seria a pessoa mais feliz do mundo.

Os avanços tecnológicos, que trouxeram um monte de facilidades para nossa vida, deveriam agir como facilitadores dos momentos de ócio criativo. Porém, na prática, a coisa não é tão simples assim: a tecnologia nos mostra quanto podemos e devemos ser ágeis e nos deixa conectados o tempo inteiro a tudo – das notícias do mundo ao e-mail da empresa, às “razezas” das redes sociais.

Que atire a primeira pedra quem nunca deu uma olhadinha na caixa de entrada do trabalho em pleno fim de semana! As razões para frear essa roda-viva e equilibrar a rotina com obrigações e prazeres são muitas, a começar pela saúde. Está comprovado que o excesso de situações estressantes afeta negativamente as defesas do organismo, facilitando o desenvolvimento de doenças.

Em contrapartida, fazer uma pausa e dedicar-se a algo realmente agradável nos ajuda a desligar a chave do estresse e seus efeitos nocivos sobre o organismo. Quando estamos descansando ou focados em nosso mundo interior, o cérebro entra no que os cientistas chamam de “modo padrão” ou “default”. A atividade desse estado mental está ligada aos componentes do nosso funcionamento socioemocional, como o autoconhecimento, os julgamentos morais, a estruturação do raciocínio e a construção de sentido daquilo que nos rodeia. Nessas condições fica mais fácil criar, inovar e encontrar soluções mais interessantes.

Como já disse, é a oportunidade de desligar o piloto automático e deixar nossa personalidade entrar em cena. A maioria das atividades profissionais não desenvolve a sensibilidade e a criatividade, pois parte de tarefas racionais e repetitivas. Já as experiências de ócio construtivo vão na direção contrária a tudo isso, porque podem ser originais, autênticas, lúdicas e desafiadoras. Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta.

Desde cedo ouvimos que temos que trabalhar para crescer na vida e conquistar aquilo o que desejamos. No entanto, ninguém nunca nos diz que, para conhecer de fato nossos desejos, é preciso colocar o pé no freio, cultivar o diálogo interno e vivenciar alguns prazeres.

Resumindo e acabando: nossas defesas podem ser:

Não aceitar todas as missões que nos são dadas. Além da tensão, isso compromete a qualidade do nosso serviço.

Não fazer média. Às vezes fica impossível ir a todos os compromissos sociais. Em algumas ocasiões, queremos mesmo é curtir nossa própria companhia, o silêncio…

Conhecer nossos talentos e investir neles. E aqui não entram só as habilidades que nós usamos profissionalmente, mas aquele esporte que gostamos de praticar, as artes, os trabalhos voluntários…

Abrir-se para o novo. Não há maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes. Verdade pura! Podemos começar mudando o trajeto que fazemos até o trabalho, escutando um estilo de música diferente, visitando uma exposição curiosa…

Habituarmos a fazer uma pausa de alguns minutos entre uma atividade desgastante e outra. Do contrário, temos a impressão de que a atividade foi contínua e o cansaço fica ainda maior.

Criar compensações. Se nosso dia foi muito cansativo ou se já sabe que terá que trabalhar no fim de semana, aliviemos a carga dando uma escapadinha para fazer algo que gostamos.

Atentemos para a motivação intrínseca. O ideal é, pelo menos uma vez ao dia, fazermos algo por desejo próprio, para balancear as demandas que vêm de fora o tempo todo e que temos que atender.

Desafiarmos-nos, mas na medida. A pessoa que é cobrada acima de suas capacidades sente ansiedade e preocupação. Entretanto, aquele de quem se exige pouco demais, sente marasmo e apatia.

Então, nada é fácil. Falar é fácil. Executar é que são elas. Bem, todas as coisa acima digo-as a mim mesmo, retumbando, esperançoso de achar coragem para mergulhar nestas coisas que nos parecem tão lógicas mas às vezes tão inacessíveis.

2 thoughts on “Conselhos pra mim mesmo

  1. MARA says:

    Meu lindo como sempre você tem sempre razão!!!! Tenho um belo exemplo de um ócio construtivo foi o que você me proporcionou ao me levar ao Instituto Inhotim, aquilo é realmente uma experiência e tanto, me lembro perfeitamente das obras, aquela obra do trator que você descreveu como “impactante”, o som da terra, ou mesmo a paisagem deslumbrante, mas uma coisa também que aprendi com você ao relatar no seu blog sobre a “Epifania” que você sentiu ao ver os pássaros ao voltar para casa, nossa não conhecia esse palavra já fui logo consultar o Aurélio, coisas simples assim também que passam despercebidas na nossa correria. Posso te dar um exemplo de uma experiência gratificante, vem pra cá dar um passeio de bicicleta como aquele que você fez aqui em Araxá há tanto tempo atrás que já até perdi a noção , a Bárbara era bem pequenina!!!Vem é simples assim, estaremos de braços abertos te esperando, para esse descanso, todos vocês, inclusive minha mana linda do coração!!!!bjs Amo vocês!! E o nunca é agora!!!!

    • Rogerio says:

      Obrigado pela palavras. Apesar deste mundo cada vez mais doido, vamos levando, porque viver é raro. A vida é tão rara…

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